Proposta de relógio com 10 horas apresentada no Congresso internacional de Sistema Métrico (séc. XIX)
Enviei certa vez (24/01/2006) um e-mail para um doutor em Psicologia da USP minha tese sobre duração que, pensou eu, é minha maior contribuiçãoà História das idéias filosóficas. Nem preciso dizer de sua apatia diante da minha teoria. A carta é a seguinte: Prezado sr.:
Minha tese começa com a rejeição de que as sensações de que o tempo passe ora mais rápido, ora mais lentamente tenham origem psíquica, do contrário por que a nossa mente faria surgir a duração curta nas experiências agradáveis – ou, mais precisamente, quando elas cessam - e a duração longa, nas experiências desagradáveis? Se a mente pudesse alterar o tempo, por que não alteraria em seu próprio benefício, ou seja, duração curta para experiências desagradáveis e duração longa para experiências agradáveis?
Que neurose ou desejo reprimido – para usar a linguagem freudiana - toda a humanidade tem em comum, que faz todos nós alterarmos o tempo deste modo? Imaginemos um público assistindo uma palestra sobre um tema que é agradável para alguns e desagradável para outros. Entre o primeiro grupo, não surgirá percepção de tempo, enquanto que no segundo, surgirá percepção de tempo longo. Assim, nem procederia, como possível explicação, crer que participemos de uma “neurose coletiva”, pois, se isto fosse verdade, deveríamos perceber simultaneamente idênticas percepções em idênticas experiências. Mesmo para aqueles que crêem que exista uma duração externa que fosse alterada pela mente humana, seria preciso que oferecessem respostas a duas questões: (1) de que material é feito esta duração que pode ser alterada pela mente; (2) que tipo de operação mental poderia comprimir ou distender o tempo? Ao distendê-lo, a mente, adicionaria mais tempo e de que lugar ela tiraria mais tempo? Rememorando nossas próprias experiências, relembramos que, quando a duração parece rápida, geralmente, estamos vivendo alguma experiência em que não percebemos o que está ou estava diante de nós; por outro lado, quando percebemos que a duração se arrasta - é longa -, em geral, ela ocorre quando o objeto que afeta nossa consciência, é, por nós, percebido repetidas vezes. Uma vez alcançadas estas observações, nossa investigação estancou ali mesmo. Lembramos, então, que René Descartes, na obra “As paixões da alma”, escrevera que o processo de rememorar uma experiência passada, requer a passagem pela memória dos “espíritos animais” – o que equivale, hoje, aos impulsos elétricos – para que, então, nossas lembranças fossem trazidas à nossa consciência. Embora a explicação deixe a desejar - parece um mito antigo -, ainda assim, serviu para nos mostrar que a memória poderia ser algo orgânico e que, se o fosse, então seu funcionamento poderia ser comparado ao de outros órgãos do corpo.
Convém pararmos um pouco esta investigação, para explicarmos porque cremos que é na memória que surja o que chamamos de duração. Há uma justificativa teórica e outra prática: John Locke acreditava que a duração surgisse na sucessão de nossas idéias e, não havendo, para ele, nada dentro de nossa mente exceto a memória, era lá que surgiria a duração. Mais tarde, no século XIX, Franz Brentano, desenvolveu a tese da “associação imaginária”, não muito diferente do que Leibniz, séculos antes, já havia especulado: a de que a duração surge a partir de uma primeira sensação, sendo que a primeira percepção é instantânea e, só posteriormente, a partir das sensações seguintes, surge-nos a percepção de duração. É claro que nestes dois últimos pensadores não há qualquer referência à memória. Por isso, uma experiência prática foi decisiva: nossa curiosidade foi despertada quando víamos pela segunda vez um mesmo filme e percebemos que na segunda exibição o filme parecia ter passado mais rápido (durado menos) do que na primeira vez. Ora, estava claro que a memória estava envolvida no surgimento da duração!
Assim, rejeitamos, por ser tão pouco crível, teses como a de Platão, de que relembramos as experiências vividas antes da alma vir para o corpo, no mundo divino ou, ainda, a de Santo Agostinho, de que a memória é uma das faculdades de uma alma imortal e, distinta do corpo físico.
Então, para nossa surpresa, recomeçamos a investigação sobre o que é a duração: para isso, comparamos a memória – supondo-a um órgão físico - com um outro órgão qualquer, como, por exemplo, o estômago. O que acontece em seu funcionamento? Quando temos fome, podemos nos alimentar menos, igual ou além do que o volume do estômago permite. É claro que podemos aumentar a sua capacidade, em função de sua elasticidade, mas isto não se faz de modo tão imediato. O que nos interessava no momento é saber se a comparação com a memória poderia nos ser útil. Tendo a memória, também, uma capacidade limitada, tese que a nossa vida diária confirma, diante de tantos problemas mnemônicos que temos, precisávamos saber por que ocorre dentro dela isto que chamamos de duração: se no estômago há as três situações descritas antes, também, no órgão responsável pela memória deveria haver semelhantes situações: obviamente, na memória, o alimento é substituído por sensações. E, na relação, entre a retenção destas sensações e a capacidade da memória de retê-las é que – especulamos - surgiria o fenômeno da “duração”.
Assim, nos aproximamos passo a passo da seguinte resposta: se as sensações fossem insuficientes para preencher a capacidade normal da memória, uma dor surgiria nela; se as sensações ocupassem a mesma capacidade da memória, a dor cessaria e um prazer – como acontece com o estômago – surgiria; e, finalmente, se as sensações fossem superiores à capacidade, outra dor surgiria – como, também, ocorre no estômago, quando o sentimos “pesado”, após consumirmos muita quantidade de alimentos. Nossa conclusão é que aquilo que chamamos de duração consista em dois tipos de dor, ambas localizadas na memória, a partir do processo de retenção das sensações. Uma dor por insuficiência e outra por excesso de sensações. Se esta tese (ou hipótese) estiver certa, pergunto-lhe: qual o impacto que teria na Psicologia, se um dia for provado que há um outro tipo de dor, até agora não identificada como tal, interferindo nas nossas ações cotidianas, de um modo constante e intenso? Agradeço pela atenção de V.Sa. e coloco-me à disposição para qualquer esclarecimento e sugestão,
Um comentário:
Se for observar uma tese a partir desta carta, convenhamos, ninguem vai ler. Contem erros ortográficos em demasia.
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