Vi horrorizado no jornal nacional de quarta-feira, dia dezoito de outubro último, a polícia atirando em dois “soldados” do tráfico de drogas, frutos da superpopulação e da falta de controle populacional, que não deviam ter mais de vinte anos cada um e que corriam morro abaixo tentando desviar dos tiros e... desarmados! E, se estavam desarmados, então o comportamento dos policiais (ou justiceiros?) era inaceitável. Em uma situação dessas deve-se dar voz de prisão, encaminhar o criminoso até uma delegacia, lá, então, registrar o crime cometido, tomar depoimentos, listar provas e mantê-los presos ou fixar fiança até que sejam julgados por um tribunal de justiça, por um juiz e por um júri. Mas, não foi o que se viu pela televisão: vimos todos um julgamento sumário onde o justiceiro identifica o criminoso e o julga instantaneamente. Milhões viram a lei de talião sendo aplicada: olho por olho, projétil por projétil....
Não sei se só eu ficou horrorizado, mas não creio que tenhamos sido muitos. Infelizmente, parece-me que a maioria aplaudiu. Quando dizem que o filme “Tropa de Elite”, sucesso nacional por boas e justificadas razões (faz o Brasil olhar nos olhos do Brasil sobre um de seus problemas crônicos: drogas, miséria e violência) é um filme fascista, tende-se a fazer o que é costumeiro e mais fácil: culpar os meios de comunicação, o que inclui o cinema. Ora, quem mostra o que acontece todos os dias nas nossas metrópoles é culpado de quê? Corremos o risco de ter que estabelecer um novo delito: o delito de dizer a verdade. Ou, o que é muito pior, de não ter dito a verdade que a maioria queria ouvir.
E quando o jornal nacional mostrou a polícia caçando um ser humano, ainda que um dos piores exemplos da espécie, nada mais fez do que mostrar uma imagem de algo que acontece há muitos anos. Preferiríamos não ver? Certamente, muitos diriam que sim, desejosos de receber em suas casas um mundo belo, ao simples toque do controle remoto, mesmo que seja artificialmente belo. Um desejo de que a televisão zele não pela verdade, mas pela profilaxia da vida. Mas, essa tão desejada higiene mental tem um nome popular conhecido por todos: lavagem cerebral.Agora, sei, na prática, depois daquela imagem da perseguição de lobos dos homens, pois o maior predador do homem é o próprio homem, como observou Plauto, Hobbes e Freud, nesta ordem cronológica, como surgem as ditaduras, os fascismos e os nazismos: as pessoas querem respostas rápidas para questões que as incomodam. E por que preferem isso? Porque pensar cansa e se responsabilizar por decisões difíceis cansa mais ainda. Liberar as drogas, incluindo-as entre duas outras drogas já consumidas livremente, o álcool e o tabaco, limitando seus usos a faixas etárias, horários e locais, reduziria drasticamente as balas perdidas e a justiça com as próprias mãos.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
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